domingo, 6 de outubro de 2024

Os ataques de Israel ao Líbano e a memória civilizacional da humanidade

 


Beirute, capital do Líbano, tem uma trajetória ligada à evolução de diversas civilizações que moldaram o Mediterrâneo e o Oriente Médio, conforme demonstrado por várias escavações arqueológicas que revelaram que a região era habitada desde o período Paleolítico. Muito antes antes da chegada dos fenícios, Beirute já possuía vestígios de ocupação de aproximadamente 5.000 a.C., o que a tornou ao longo do tempo um importante entreposto de intercâmbio cultural e comercial entre as primeiras civilizações do Crescente Fértil. A cidade se desenvolveu como um dos pontos de contato entre as culturas mesopotâmicas, egípcias e outras que surgiam ao longo da costa oriental do Mediterrâneo.

A civilização fenícia, por exemplo, que emergiu por volta de 2000 anos a.C., desempenhou um papel importante  na história de Beirute, sendo que sob seu domínio a cidade se tornou um dos polos da rede de comércio marítimo que se estendia por todo o Mediterrâneo, chegando até Cartago, no norte da África, e à Península Ibérica. A língua, a escrita e a cultura fenícia influenciaram as civilizações vizinhas, incluindo os gregos e os romanos, que eventualmente passaram a dominar a região. Durante o domínio romano, Beirute foi reconhecida por sua grandiosa escola de direito, uma das mais prestigiadas do Império Romano.


A importância arqueológica de Beirute é de grande importância para a história da humanidade, de modo que suas camadas de ocupação humana ao longo de milênios tornaram a cidade um centro arqueológico, com ruínas que incluem templos fenícios, termas romanas, igrejas bizantinas e mesquitas omíadas. A Beirute moderna repousa sobre essas ruínas, o que torna qualquer ataque à sua infraestrutura, não somente um crime contra a humanidade, mas um ataque direto ao passado da história humana. Os bombardeios militares dirigidos à Beirute por Israel, além de dizimar a vida de civis que não possuem relação alguma com o Hezbollah, ameaça também apagar a memória histórica de civilizações inteiras. É uma agressão a civis inocentes e contra o patrimônio cultural da humanidade, o que se configura como uma perda que vai muito além das fronteiras do Líbano.

Desde o início de sua existência, o Estado de Israel tem buscado consolidar seu território, e os ataques ao Líbano, sob a justificativa de combater o terrorismo, servem para avançar essa agenda expansionista, conforme pode ser observado na relação do sionismo com os territórios palestinos ao longo da história. Ataques de grande escala a Beirute vai resultar em outro genocídio, assim como já vem acontecendo na Faixa de Gaza com os palestinos. Os ataques em áreas densamente povoadas, com a justificativa de atingir alvos terroristas, inevitavelmente levam à morte de civis em massa, cenário bem conhecido pelos palestinos desde a criação do Estado sionista. 

O momento atual configura uma escalada do genocídio cultural e humano que se iniciou com os ataques desproporcionais sobre os palestinos desde outubro do ano passado como resposta de Israel aos ao Hamas. O apoio do Ocidente às atrocidades cometidas por Israel não são justificáveis sob a perspectiva de qualquer argumento minimamente racional, e somente revela a hipocrisia e o etnocentrismo ainda presentes em Estados que, no passado, promoveram o colonialismo, a escravidão e o neocolonialismo, e que hoje sustentam o imperialismo em decadência dos Estados Unidos.