quinta-feira, 25 de julho de 2024

Trump e os combustíveis fósseis: a negação das mudanças climáticas como retórica

 




André Scantimburgo

O plano de governo de Donald Trump para as eleições de 2024 reflete uma continuidade de políticas baseadas em sua retórica negacionista das mudanças climáticas. Ao que tudo indica, caso seja eleito, seu foco principal é voltar à carga de desregulamentação ambiental, com apoio massivo ao setor energético de combustíveis fósseis e a continuidade de posturas céticas em relação às mudanças climáticas. Em discurso feito no mês de novembro de 2022 em seu resort Mar-a-Lago na Flórida, Trump abriu sua artilharia contra políticas ambientais: “O desastre socialista conhecido como Green New Deal, que está destruindo nosso país, e as muitas regulamentações paralisantes que ele gerou serão imediatamente encerradas para que nosso país possa respirar, crescer e prosperar novamente como deveria”.[1]

O ex-presidente já tem deixado claro que promete continuar a desregulamentação de políticas ambientais que ele vê como obstáculos para o crescimento econômico, na medida em que acredita que a remoção de regulações, consideradas onerosas por ele, permitirá que as empresas operem com mais liberdade, promovendo a competitividade e a criação de empregos, afirmação que fica mais na retórica do que na realidade. Este enfoque preocupante inclui a revisão e potencial revogação de regulamentações sobre emissões de gases de efeito estufa, controle de poluição da água e proteções para espécies ameaçadas, ou seja, uma continuidade do que Trump implementou no seu governo.

Em 2017, Trump assinou uma ordem executiva para desmantelar o Clean Power Plan, uma iniciativa da administração Obama destinada a reduzir as emissões de carbono das usinas de energia[2]. Sob a liderança de Scott Pruitt e Andrew Wheeler, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) reverteu ou enfraqueceu várias regulamentações ambientais que limitavam as emissões de poluentes das indústrias de carvão, petróleo e gás. Trump também  autorizou a exploração de petróleo e gás no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico (ANWR) e abriu mais terras federais para perfuração e mineração, incluindo áreas protegidas anteriormente, que passaram a ser disponíveis para perfuração offshore, o que permitiu novas explorações em praticamente todas as águas costeiras dos Estados Unidos[3]. A abertura de áreas protegidas, como o ANWR, para exploração de petróleo e gás, ameaçou ecossistemas sensíveis e a vida selvagem na região. Posteriormente, o governo Biden reverteu a exploração de petróleo no Ártico, suspendendo os contratos por meio de uma Ordem do Departamento do Interior.[4]

Não é nenhum segredo que o governo de Donald Trump foi marcado por uma forte ligação com a indústria de combustíveis fósseis, que desempenhou um papel de destaque tanto em sua campanha quanto em suas políticas de governo. A influência dessas empresas foi evidente em várias decisões e ações políticas que favoreceram os interesses do setor. ExxonMobil, Chevron e BP não só apoiaram a campanha de Trump com arrecadação financeira[5], como estavam entre as maiores beneficiárias das políticas de seu governo.

Essas empresas financiaram grupos de lobby como o American Petroleum Institute (API) e a U.S. Chamber of Commerce, que pressionaram por políticas que desregulassem o setor de energia e promovesse a exploração e produção de petróleo e gás. A indústria do carvão, representada pela Murray Energy e Peabody Energy, também foi um grande apoiador de Trump. Robert Murray, ex-CEO da Murray Energy, foi um dos maiores doadores da campanha de Trump e elaborou uma "wish list" de políticas pró-carvão que foram adotadas pela administração[6]. Organizações como o American Legislative Exchange Council (ALEC) e a Koch Industries, liderada pelos irmãos Koch, desempenharam um papel significativo em moldar as políticas ambientais de Trump, conforme denúncias da agência Bloomberg[7].

Até aqui nenhuma surpresa, dado que Trump tem sido um notório cético em relação às mudanças climáticas, frequentemente desconsiderando a vasta evidência científica que aponta para a influência humana no aquecimento global. Este posicionamento além problemático, ignora relatórios de órgãos científicos respeitados, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que alertam sobre os impactos catastróficos do aumento das temperaturas globais. O relatório especial do IPCC de 2018 destacou que limitar o aquecimento global a 1,5°C requer reduções rápidas, abrangentes e sem precedentes nas emissões de GEE. A falta de ação urgente pode levar a eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e insegurança alimentar para milhões de pessoas.

Em 1º de junho de 2017, Trump anunciou a retirada dos EUA do Acordo de Paris, um pacto global  para o combate às mudanças climáticas[8]. Esta decisão foi amplamente criticada por especialistas, políticos e líderes mundiais e teve repercussões significativas tanto no cenário internacional quanto nas políticas ambientais dos EUA. O Acordo de Paris, adotado em 2015, estabeleceu um compromisso global para limitar o aquecimento global abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com esforços para restringir o aumento da temperatura a 1,5°C. O pacto visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) por meio de contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) e promove a adaptação aos impactos inevitáveis das mudanças climáticas. O acordo é amplamente reconhecido como um marco no esforço global para enfrentar a crise climática.

Na época, a retirada dos EUA dos acordos de PAris representou um interrompimento no compromisso do país de reduzir suas emissões de GEE, que, conforme os dados da Agência de Proteção Ambiental americana, representavam cerca de 15% das emissões do mundo.

A ausência dos Estados Unidos enfraqueceu os esforços internacionais para alcançar as metas climáticas, na medida em que  estudos sugerem que o não cumprimento dos acordos assumidos em Paris pode ter contribuído para um aumento nas emissões de carbono. Um relatório da Rhodium Group indicou que a política de Trump resultou em um aumento das emissões de CO2 em 2018, revertendo parte dos avanços alcançados na década anterior. Além disso, a retirada desacelerou os investimentos em energias renováveis, pois sinalizou um retrocesso nas políticas ambientais e reduziu o estímulo para o desenvolvimento de tecnologias limpas[9].

Embora o Trump tenha argumentado que o Acordo de Paris era prejudicial para a economia dos EUA e que a retirada protegeria empregos no setor de combustíveis fósseis, muitos especialistas atestam seu equívoco, conforme demonstra estudo da Bloomberg New Energy Finance, ao afirmar   que os investimentos em energias renováveis e tecnologia limpa eram mais vantajosos do que continuar a apoiar combustíveis fósseis[10]. Segundo o estudo, o custo da geração de eletricidade a partir de fontes renováveis, como solar e eólica, tem caído drasticamente, de modo que em muitos casos, essas fontes de energia são agora mais baratas. Em particular, o custo da energia solar fotovoltaica diminuiu cerca de 89% na última década, enquanto o custo da energia eólica caiu aproximadamente 70%. Em 2020, a BNEF relatou que duas terças partes da população mundial vive em países onde a energia renovável é a fonte de eletricidade mais barata. Essa competitividade econômica torna os investimentos em energias renováveis não apenas ambientalmente responsáveis, mas também financeiramente sensatos[11].

Politicamente, a decisão de Trump enfraqueceu momentaneamente a posição dos Estados Unidos como pretenso líder global em questões ambientais, conforme pode ser observado pelo teor das críticas de líderes internacionais, incluindo a União Europeia, que consideraram a decisão um obstáculo para os esforços globais contra as mudanças climáticas[12]. Até mesmo dentro dos EUA a retirada do Acordo de Paris exacerbou a polarização política, com uma parte significativa da população e dos estados desafiando a decisão federal e continuando a implementar suas próprias políticas de redução de emissões[13]. Isso levou a uma divisão entre o governo federal e os governos estaduais e locais (oito estados americanos e a cidade de Nova Iorque), que assumiram   um papel maior na luta contra as mudanças climáticas ao manterem suas políticas de redução de emissão de GEE. [14].

Fato é que as políticas ambientais propostas por Donald Trump (ou falta delas) representam um grave retrocesso nos esforços para enfrentar as mudanças climáticas e proteger o meio ambiente. O desprezo pelas regulamentações ambientais, a promoção desenfreada de combustíveis fósseis e o ceticismo em relação às ciências climáticas são indicativos de uma abordagem que coloca em risco o futuro não somente dos EUA, como do planeta. Dados científicos robustos indicam que uma ação urgente e coordenada é necessária para mitigar os piores efeitos das mudanças climáticas. A eleição de Trump, com suas políticas ambientais retrógradas, poderia ser uma tragédia nesse sentido, comprometendo ainda mais o cenário de crise ambiental contemporânea.



[1] https://libertarianinstitute.org/articles/donald-trump-reveals-his-2024-presidential-platform/

[2] https://www.vox.com/2019/6/19/18684054/climate-change-clean-power-plan-repeal-affordable-emissions

[3] https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2020/08/17/trump-da-sinal-verde-para-perfuracoes-petroliferas-em-santuario-ecologico-no-alasca.htm

[4] https://www.dw.com/pt-br/biden-suspende-contratos-de-explora%C3%A7%C3%A3o-de-petr%C3%B3leo-no-%C3%A1rtico/a-57754620

[5] https://insideclimatenews.org/news/19042017/fossil-fuels-oil-coal-gas-exxon-chevron-bp-donald-trump-inauguration-donations/

[6] https://www.politico.com/story/2017/11/06/trumps-coal-backers-energy-power-rick-perry-244535

[7] https://www.bloomberg.com/politics/articles/2017-11-15/coal-funded-alec-prods-trump-to-say-climate-change-not-a-risk?embedded-checkout=true

[8] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/06/1889367-trump-anuncia-retirada-dos-eua-do-acordo-de-paris-sobre-o-clima.shtml

[9] https://valor.globo.com/mundo/noticia/2019/01/09/emissoes-de-co2-disparam-nos-eua-com-aceleracao-da-economia.ghtml

[10] https://assets.bbhub.io/professional/sites/24/928908_NEO2020-Executive-Summary.pdf

[11] https://www.irena.org/Publications/2023/Aug/Renewable-Power-Generation-Costs-in-2022

[12] https://www.dw.com/pt-br/mundo-reage-%C3%A0-decis%C3%A3o-de-trump-de-deixar-acordo-de-paris/a-39088773

[13] https://www.ipea.gov.br/revistas/index.php/rtm/article/download/138/215/313

[14] https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/06/1890835-apesar-de-decisao-de-trump-estados-americanos-seguem-acordo-de-paris.shtml

segunda-feira, 22 de julho de 2024

A crise do neoliberalismo, Trump e a extrema-direita nos Estados Unidos




André Scantimburgo

Desde a década de 1980, o neoliberalismo vem se impondo ao mundo como ideologia dominante, promovendo a desregulamentação econômica, a privatização de serviços públicos e a redução de investimentos em políticas sociais. No entanto, as crises econômicas recorrentes, como a crise do subprime de 2008 e a desaceleração econômica subsequente, expuseram as limitações dessas políticas. O neoliberalismo, ao focar na maximização dos lucros e na desregulamentação, não conseguiu enfrentar problemas estruturais profundos, como o aumento da desigualdade e a instabilidade financeira.

A desregulamentação financeira promovida por governos neoliberais permitiu que o capital financeiro se movimentasse livremente e de forma especulativa, aumentando a instabilidade econômica. A crise financeira de 2008 foi um reflexo das contradições internacionais do capitalismo neoliberal, onde o excesso de capital financeiro especulativo levou a uma crise de superprodução e superacumulação. A financeirização desvia recursos da produção para a especulação financeira, resultando em um crescimento econômico desigual e insustentável. As empresas, ao invés de reinvestirem seus lucros na produção, optam por retornos rápidos por meio de operações financeiras, exacerbando a volatilidade e a frequência da formação de bolhas especulativas, como a que ocorreu no setor imobiliário dos Estados Unidos em 2008.

Contudo, a ascensão de movimentos e líderes de extrema direita em períodos de crise econômica e social pode ser entendida como uma resposta das elites e setores conservadores para preservar o status quo, ao mesmo tempo em que se aproveitam da insatisfação popular com a situação econômica e política. Wallerstein[2] argumenta que a extrema direita adquire maior popularidade em períodos de crise sistêmica, quando há uma desaceleração do crescimento econômico e uma crise de legitimidade do sistema capitalista. Esse movimento ascendente de movimentos radicais funciona como um mecanismo para obstaculizar possíveis mudanças sociais e políticas que tenham o poder de abalar o poder das elites econômicas e políticas. Para tanto, as respostas para as crises são dadas através de uma retórica conservadora e nacionalista, ao desviar o foco do questionamento da lógica estrutural da economia que levou às situações de crise.

Na mesma linha de argumentação, Giovanni Arrighi[3], em suas análises sobre o capitalismo global, argumenta que a atuação da extrema direita pode ser vista como uma resposta conservadora às crises de acumulação de capital. O autor vê a extrema direita como um fenômeno emergente em resposta à instabilidade do sistema financeiro global e à erosão da coesão social resultante, principalmente, das políticas econômicas neoliberais. A extrema direita atua como uma força conservadora que busca estabilizar o sistema capitalista através de um discurso pautado na manutenção da ordem social tradicional e da promoção de uma identidade nacional exclusiva, como podemos observar ao longo da histórica com o nazifascismo.

A crise de 2008, em particular, destacou a falência das políticas neoliberais, mostrando como a desregulamentação dos mercados financeiros e a excessiva liberalização haviam contribuído para a criação de bolhas econômicas e a concentração de riqueza. Apesar dos pacotes de resgate e das políticas de estímulo econômico adotadas em resposta à crise, a maior parte do mundo continuou a sentir os efeitos adversos da recessão, como o desemprego, a precarização do trabalho e a deterioração dos serviços públicos. Embora o neoliberalismo promova a ideia de um Estado mínimo, o Estado ainda desempenha um papel crucial para salvar o sistema financeiro durante as crises. De acordo com o economista François Chesnais[1], as intervenções estatais para resgatar bancos e empresas falidas demonstram as limitações e contradições do neoliberalismo. Essas intervenções são vistas como socialização das perdas e privatização dos lucros, onde os custos das crises são transferidos para a sociedade enquanto os benefícios são concentrados entre a elite financeira. A insatisfação com a incapacidade do sistema financeiro e político de responder efetivamente a essas questões criou um ambiente propício para o ressurgimento de correntes políticas que perderam o pudor de exacerbar retóricas extremistas.

A extrema direita se aproveitou desse vácuo de descontentamento para promover uma agenda que, embora criticamente oposicionista ao establishment econômico, busca, na prática, preservar o sistema econômico neoliberal sob uma nova roupagem. Figuras da extrema direita, como Donald Trump, frequentemente adotam um discurso que critica as elites políticas e econômicas, afirmando que são vítimas de um sistema corrompido e ineficaz. Entretanto, suas propostas e políticas muitas vezes servem para reforçar as estruturas existentes, mantendo o status quo econômico enquanto promovem um nacionalismo e conservadorismo exacerbados.

Esses líderes frequentemente utilizam retórica populista para ganhar apoio, apresentando-se como "outsiders" que combatem um sistema injusto, ao mesmo tempo em que, na prática, defendem políticas que beneficiam os grandes interesses corporativos, como a desregulamentação adicional e a privatização de ativos públicos. Donald Trump, ao longo de sua campanha para as eleições de 2016 e atualmente, bem como durante seu mandato, se posiciona como um candidato fora do círculo político tradicional, disposto a lutar contra as elites de Washington e Wall Street. Sua retórica populista atraiu uma base de eleitores desiludidos com a política tradicional e preocupados com a perda de empregos e a estagnação salarial, sobretudo os operários desempregados do cinturão da ferrugem no nordeste do país. Uma vez no poder, Trump adotou uma série de políticas ultraliberais que beneficiaram desproporcionalmente as corporações e os mais ricos, além de ter agravado a condição política da classe média e das populações mais vulneráveis.

Pode-se observar essas posturas na assinatura da Lei de Cortes de Impostos e Empregos em 2017 que praticamente destruiu o financiamento para programas de assistência médica e alimentar para as populações mais vulneráveis. A legislação reduziu significativamente a carga tributária sobre as empresas e os indivíduos mais ricos, enquanto ofereceu benefícios mínimos à classe trabalhadora, assim como fez Reagan na década de 1980.

Além disso, Trump promoveu uma desregulamentação agressiva de vários setores da economia, desde a proteção ambiental até as regras financeiras, argumentando que essas medidas impulsionariam o crescimento econômico. No entanto, essas políticas serviram para consolidar o poder econômico das grandes corporações e aumentar a desigualdade, tornando os problemas sociais de sua própria base eleitoral ainda mais graves.

De acordo com artigo da revista científica Lancet[4] que analisou as políticas públicas na área de saúde no governo Trump, suas ações como presidente devastaram a saúde pública, inclusive fazendo com que os EUA diminuíssem a expetativa de vida da população na comparação com outros países ricos. As ações de Trump levaram 2,3 milhões de pessoas residentes nos EUA a ficarem sem seguro de saúde, entre elas, mais  de 720 mil crianças.

Os dados do artigo da Lancet demonstram também que as ações de Trump representaram uma aceleração agressiva de políticas neoliberais que datam de 40 anos, ou seja, Trump implementou um desmonte dos avanços do New Deal e da era dos direitos civis na igualdade econômica e racial. O resultado foi o aumento da desigualdade, com muitas pessoas nos EUA sendo privadas dos benefícios do crescimento econômico: “A expectativa de vida nos EUA, que era semelhante à de outras nações de alta renda em 1980, ficou 3,4 anos atrás da média do G7 em 2018 (equivalente a 461.000 mortes a mais nos EUA somente naquele ano).”[5]

O discurso anticorrupção da extrema direita caí por terra assim que suas práticas vêm a público. O governo Trump foi marcado por uma série de escândalos de corrupção e uma postura consistentemente negacionista em relação a várias questões fundamentais. Sua administração esteve envolvida em múltiplas controvérsias éticas e legais, além de adotar atitudes que negavam evidências científicas e fatos objetivos. Um dos exemplos mais notórios foi o uso de propriedades da Trump Organization para hospedagens oficiais e eventos governamentais, resultando em pagamentos significativos do governo às empresas de Trump. Esses casos levantaram questões sobre conflitos de interesse e a violação da cláusula de emolumentos da Constituição dos EUA, que proíbe o presidente de receber benefícios financeiros de governos estrangeiros sem a aprovação do Congresso.

Em 2018, a Trump Foundation foi dissolvida depois de ser acusada de práticas ilegais, incluindo a utilização de fundos de caridade para despesas pessoais, pagamento de acordos legais de empresas de Trump e financiamento da campanha presidencial de 2016. A investigação conduzida pela Procuradora-Geral de Nova York concluiu que a fundação operava de forma persistente e ilegal para o benefício pessoal e político de Trump.

Não pode-se esquecer também  que a gestão Trump da pandemia de COVID-19 foi amplamente criticada por sua postura negacionista. Desde o início, Trump minimizou a gravidade do vírus, comparando-o a uma gripe comum e sugerindo que ele desapareceria "como um milagre". Ignorou e contradisse repetidamente as orientações de especialistas em saúde pública, promoveu tratamentos não comprovados, como a hidroxicloroquina, e resistiu ao uso de máscaras e ao distanciamento social. Essa abordagem contribuiu para a alta mortalidade e a propagação do vírus nos Estados Unidos.

Trump é também um negacionista consistente das mudanças climáticas, tendo retirada os Estados Unidos do Acordo de Paris e revertendo inúmeras regulamentações ambientais. Ele frequentemente desqualificava a ciência climática, promovendo o uso de combustíveis fósseis e enfraquecendo a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Suas políticas ambientais favoreciam a indústria de petróleo e carvão, ignorando os impactos negativos para o meio ambiente e a saúde pública.

Frequentemente percebido pelos mais desavisados como uma figura anti-establishment no enfrentamento às elites políticas e econômicas tradicionais, uma análise mais detalhada das ações e políticas de Trump revela que ele se comporta como legítimo representante das elites que afirma combater. Sua campanha utiliza-se de uma retórica populista para mobilizar apoio popular, enquanto na prática avança em projetos que reforçam o poder das elites econômicas que lucram com a crise econômica e social dos Estados Unidos.



[1] François, Chesnais. Finance capital today: corporations and banks in the lasting global slump. Boston: Brill Academic Pub, 2016

[2] Wallerstein, Immanuel. World-Systems Analysis: An Introduction. Duke University Press, 2004.

[3] Arrighi, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. São Paulo:  Editora Unesp, 2007.

[4] https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S0140-6736%2820%2932545-9

[5] Ibidem