André Scantimburgo
Desde a
década de 1980, o neoliberalismo vem se impondo ao mundo como ideologia dominante, promovendo a
desregulamentação econômica, a privatização de serviços públicos e a redução de
investimentos em políticas sociais. No entanto, as crises econômicas
recorrentes, como a crise do subprime de 2008 e a desaceleração econômica
subsequente, expuseram as limitações dessas políticas. O neoliberalismo, ao
focar na maximização dos lucros e na desregulamentação, não conseguiu enfrentar
problemas estruturais profundos, como o aumento da desigualdade e a
instabilidade financeira.
A
desregulamentação financeira promovida por governos neoliberais permitiu que o
capital financeiro se movimentasse livremente e de forma especulativa,
aumentando a instabilidade econômica. A crise financeira de 2008 foi um reflexo
das contradições internacionais do capitalismo neoliberal, onde o excesso de
capital financeiro especulativo levou a uma crise de superprodução e
superacumulação. A financeirização desvia recursos da produção para a
especulação financeira, resultando em um crescimento econômico desigual e
insustentável. As empresas, ao invés de reinvestirem seus lucros na produção,
optam por retornos rápidos por meio de operações financeiras, exacerbando a
volatilidade e a frequência da formação de bolhas especulativas, como a que
ocorreu no setor imobiliário dos Estados Unidos em 2008.
Contudo,
a ascensão de movimentos e líderes de extrema direita em períodos de crise
econômica e social pode ser entendida como uma resposta das elites e setores
conservadores para preservar o status quo, ao mesmo tempo em que se aproveitam
da insatisfação popular com a situação econômica e política. Wallerstein[2] argumenta que a extrema
direita adquire maior popularidade em períodos de crise sistêmica, quando há
uma desaceleração do crescimento econômico e uma crise de legitimidade do
sistema capitalista. Esse movimento ascendente de movimentos radicais funciona
como um mecanismo para obstaculizar possíveis mudanças sociais e políticas que
tenham o poder de abalar o poder das elites econômicas e políticas. Para tanto,
as respostas para as crises são dadas através de uma retórica conservadora e
nacionalista, ao desviar o foco do questionamento da lógica estrutural da
economia que levou às situações de crise.
Na mesma
linha de argumentação, Giovanni Arrighi[3], em suas análises sobre o
capitalismo global, argumenta que a atuação da extrema direita pode ser vista
como uma resposta conservadora às crises de acumulação de capital. O autor vê a
extrema direita como um fenômeno emergente em resposta à instabilidade do
sistema financeiro global e à erosão da coesão social resultante, principalmente,
das políticas econômicas neoliberais. A extrema direita atua como uma força
conservadora que busca estabilizar o sistema capitalista através de um discurso
pautado na manutenção da ordem social tradicional e da promoção de uma
identidade nacional exclusiva, como podemos observar ao longo da histórica com o
nazifascismo.
A crise
de 2008, em particular, destacou a falência das políticas neoliberais,
mostrando como a desregulamentação dos mercados financeiros e a excessiva
liberalização haviam contribuído para a criação de bolhas econômicas e a
concentração de riqueza. Apesar dos pacotes de resgate e das políticas de
estímulo econômico adotadas em resposta à crise, a maior parte do mundo
continuou a sentir os efeitos adversos da recessão, como o desemprego, a
precarização do trabalho e a deterioração dos serviços públicos. Embora o neoliberalismo promova a ideia de um Estado mínimo, o Estado ainda desempenha um papel crucial para salvar o sistema financeiro durante as crises. De acordo com o economista François Chesnais[1], as intervenções estatais para resgatar bancos e empresas falidas demonstram as limitações e contradições do neoliberalismo. Essas intervenções são vistas como socialização das perdas e privatização dos lucros, onde os custos das crises são transferidos para a sociedade enquanto os benefícios são concentrados entre a elite financeira. A insatisfação
com a incapacidade do sistema financeiro e político de responder efetivamente a
essas questões criou um ambiente propício para o ressurgimento de correntes
políticas que perderam o pudor de exacerbar retóricas extremistas.
A
extrema direita se aproveitou desse vácuo de descontentamento para promover uma
agenda que, embora criticamente oposicionista ao establishment econômico,
busca, na prática, preservar o sistema econômico neoliberal sob uma nova
roupagem. Figuras da extrema direita, como Donald Trump, frequentemente adotam
um discurso que critica as elites políticas e econômicas, afirmando que são
vítimas de um sistema corrompido e ineficaz. Entretanto, suas propostas e
políticas muitas vezes servem para reforçar as estruturas existentes, mantendo
o status quo econômico enquanto promovem um nacionalismo e conservadorismo
exacerbados.
Esses
líderes frequentemente utilizam retórica populista para ganhar apoio,
apresentando-se como "outsiders" que combatem um sistema
injusto, ao mesmo tempo em que, na prática, defendem políticas que beneficiam
os grandes interesses corporativos, como a desregulamentação adicional e a
privatização de ativos públicos. Donald Trump, ao longo de sua campanha para as
eleições de 2016 e atualmente, bem como durante seu mandato, se posiciona como
um candidato fora do círculo político tradicional, disposto a lutar contra as
elites de Washington e Wall Street. Sua retórica populista atraiu uma base de
eleitores desiludidos com a política tradicional e preocupados com a perda de
empregos e a estagnação salarial, sobretudo os operários desempregados do cinturão
da ferrugem no nordeste do país. Uma vez no poder, Trump adotou uma série
de políticas ultraliberais que beneficiaram desproporcionalmente as corporações
e os mais ricos, além de ter agravado a condição política da classe média e das
populações mais vulneráveis.
Pode-se
observar essas posturas na assinatura da Lei de Cortes de Impostos e Empregos
em 2017 que praticamente destruiu o financiamento para programas de assistência
médica e alimentar para as populações mais vulneráveis. A legislação reduziu
significativamente a carga tributária sobre as empresas e os indivíduos mais
ricos, enquanto ofereceu benefícios mínimos à classe trabalhadora, assim como
fez Reagan na década de 1980.
Além
disso, Trump promoveu uma desregulamentação agressiva de vários setores da
economia, desde a proteção ambiental até as regras financeiras, argumentando
que essas medidas impulsionariam o crescimento econômico. No entanto, essas
políticas serviram para consolidar o poder econômico das grandes corporações e
aumentar a desigualdade, tornando os problemas sociais de sua própria base
eleitoral ainda mais graves.
De
acordo com artigo da revista científica Lancet[4] que analisou as políticas
públicas na área de saúde no governo Trump, suas ações como presidente
devastaram a saúde pública, inclusive fazendo com que os EUA diminuíssem a
expetativa de vida da população na comparação com outros países ricos. As ações de Trump levaram 2,3 milhões de pessoas residentes nos EUA a
ficarem sem seguro de saúde, entre elas, mais de 720 mil crianças.
Os dados do artigo da Lancet demonstram também que as ações de Trump representaram uma
aceleração agressiva de políticas neoliberais que datam de 40 anos, ou seja, Trump
implementou um desmonte dos avanços do New Deal e da era dos direitos civis na
igualdade econômica e racial. O resultado foi o aumento da desigualdade, com
muitas pessoas nos EUA sendo privadas dos benefícios do crescimento econômico: “A
expectativa de vida nos EUA, que era semelhante à de outras nações de alta
renda em 1980, ficou 3,4 anos atrás da média do G7 em 2018 (equivalente a
461.000 mortes a mais nos EUA somente naquele ano).”[5]
O discurso
anticorrupção da extrema direita caí por terra assim que suas práticas vêm a
público. O governo Trump foi marcado por uma série de escândalos de corrupção e
uma postura consistentemente negacionista em relação a várias questões
fundamentais. Sua administração esteve envolvida em múltiplas controvérsias
éticas e legais, além de adotar atitudes que negavam evidências científicas e
fatos objetivos. Um dos exemplos mais notórios foi o uso de propriedades da Trump
Organization para hospedagens oficiais e eventos governamentais, resultando
em pagamentos significativos do governo às empresas de Trump. Esses casos
levantaram questões sobre conflitos de interesse e a violação da cláusula de
emolumentos da Constituição dos EUA, que proíbe o presidente de receber
benefícios financeiros de governos estrangeiros sem a aprovação do Congresso.
Em 2018,
a Trump Foundation foi dissolvida depois de ser acusada de práticas ilegais,
incluindo a utilização de fundos de caridade para despesas pessoais, pagamento
de acordos legais de empresas de Trump e financiamento da campanha presidencial
de 2016. A investigação conduzida pela Procuradora-Geral de Nova York concluiu
que a fundação operava de forma persistente e ilegal para o benefício pessoal e
político de Trump.
Não pode-se
esquecer também que a gestão Trump da
pandemia de COVID-19 foi amplamente criticada por sua postura negacionista.
Desde o início, Trump minimizou a gravidade do vírus, comparando-o a uma gripe
comum e sugerindo que ele desapareceria "como um milagre". Ignorou e
contradisse repetidamente as orientações de especialistas em saúde pública,
promoveu tratamentos não comprovados, como a hidroxicloroquina, e resistiu ao
uso de máscaras e ao distanciamento social. Essa abordagem contribuiu para a
alta mortalidade e a propagação do vírus nos Estados Unidos.
Trump é
também um negacionista consistente das mudanças climáticas, tendo retirada os
Estados Unidos do Acordo de Paris e revertendo inúmeras regulamentações
ambientais. Ele frequentemente desqualificava a ciência climática, promovendo o
uso de combustíveis fósseis e enfraquecendo a Agência de Proteção Ambiental
(EPA). Suas políticas ambientais favoreciam a indústria de petróleo e carvão,
ignorando os impactos negativos para o meio ambiente e a saúde pública.
Frequentemente
percebido pelos mais desavisados como uma figura anti-establishment no
enfrentamento às elites políticas e econômicas tradicionais, uma análise mais
detalhada das ações e políticas de Trump revela que ele se comporta como
legítimo representante das elites que afirma combater. Sua campanha utiliza-se
de uma retórica populista para mobilizar apoio popular, enquanto na prática avança em projetos que reforçam o poder
das elites econômicas que lucram com a crise econômica e social dos Estados Unidos.
[1] François, Chesnais. Finance capital today: corporations and banks in
the lasting global slump. Boston: Brill Academic Pub, 2016
[2] Wallerstein, Immanuel. World-Systems Analysis: An Introduction.
Duke University
Press, 2004.
[3] Arrighi, Giovanni. O longo século XX:
dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. São Paulo: Editora Unesp, 2007.
[4] https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S0140-6736%2820%2932545-9
[5] Ibidem